• setembro 21, 2020

Quaresma: fazer o bem como se nossas mãos fossem mãos de Deus

Na tarde de quarta-feira (04) o pregador dos Exercícios Espirituais à Cúria Romana, Padre Bovati, fez a sua sexta meditação. No centro da reflexão o caminho de Israel no deserto, lugar de provações mas também da manifestação da bondade de Deus para com o seu povo

Adriana Masotti – Cidade do Vaticano

Na narração do Êxodo, o deserto é o lugar da providência. O lugar onde o Senhor “se revela como o Deus da aliança com Israel, o Deus bom e fiel, e ao mesmo tempo, como o soberano onipotente ao qual estão submetidas todas as forças cósmicas”. Padre Pietro Bovati prossegue a sua reflexão quaresmal, que chega na sua sexta etapa, citando uma passagem bíblica que por um lado mostra o Senhor “como artífice da história da salvação”, e de outro “não sublinha suficientemente um outro aspecto importante, ou seja, a livre expressão dos homens, seu consenso ou a sua rebeldia para com Deus. Porém, sem a atividade humana – observa o teólogo jesuíta – a história assume uma imagem deformada “na qual Deus atua, sim, admiravelmente”, mas o homem corre o risco de ser reduzido “a puro objeto passivo”. “Portanto, paradoxalmente, para exaltar Deus na sua obra, chega-se a dizimar o próprio ápice da criação, formado pelo homem livre e artífice do seu destino, porque foi criado a imagem e semelhança de Deus”.

Os textos bíblicos são complexos e muitas vezes complementares, afirma padre Bovati, e muitos deles mostram que o Senhor no seu agir considera as resistências dos homens e deseja sempre suscitar uma resposta, não se impõe e deseja uma relação com a criatura “mesmo de cooperação, de corajosa colaboração”, a ponto que do homem, em um certo sentido, depende a realização da ação salvífica de Deus nos acontecimentos humanos.

O deserto “figura da vida”

Os 40 anos passados no deserto significam toda uma existência, o deserto é representação da nossa terra, onde o homem sofre, mas onde Deus se revela e o faz “na própria ação dos seus servos”. Padre Bovati reitera um ponto fundamental: “É preciso assumir com responsável obediência a tarefa de fazer o bem como se as nossas mãos fossem as mãos de Deus”. E isso se realiza quando o servo de Deus vive a dupla virtude da escuta: a escuta da voz de Deus e a escuta do grito do povo que lhe foi confiado.

O deserto, repete o pregador, “é figura da vida”. É um tempo que pode se tornar tentação, “é o nosso tempo, o tempo do homem”. Deus coloca o seu povo à prova para que amadureça na fé e ao mesmo tempo estimula os homens capazes de ajudar os que estão sob prova, como no caso de Moisés. Ele escuta o grito dos sofredores, mesmo se manifestado debilmente e se os pedidos da sua gente o colocam em dificuldade porque ele mesmo não sabe como responder. Mas escuta porque Deus faz assim. “Mesmo as nossas orações, são sempre muito imperfeitas e principalmente, o grito do povo sofredor, muitas vezes é turbulento”. Então Moisés invoca com fé o Senhor na oração que vence a tentação e recebe resposta.

Ao amar, ensina-se amar

O pregador introduz um novo conceito: na narração bíblica se diz que “naquele lugar o Senhor impôs ao povo uma lei e uma ordem”. “Isso significa – explica o pregador – que no próprio ato do socorro, deve ser inculcada a relação obediente com o Senhor”. Portanto, ao amar ensina-se amar, “na obra de misericórdia corporal se faz também a obra de misericórdia espiritual, alcança-se o coração das pessoas, colocando-os na condição de crer em Deus e de agir como Deus quer, ou seja no amor”.

Por fim padre Bovati fala sobre a passagem evangélica do juízo final. Todo o juízo está centralizado em uma só coisa: na ajuda ou na falta de ajuda para com os mais necessitados. Portanto há uma concretitude do fazer, que exige a dedicação a um corpo que sofre, mas também do coração do sofredor. Nos mais necessitados, diz o Evangelho, há Jesus mas, pergunta-se o pregador, “como é possível ver que nós socorremos Deus quando nos dedicamos aos mais necessitados? Como os nossos olhos de carne podem realmente ver que é assim?”. Então conclui: “É sem ver que nós amamos, sem glória, sem honra, no doar-se até morrer, há a plenitude do bem, há a bênção do Pai na vida”.